
Para a maioria das pessoas o prazer é uma palavra que evoca sentimentos conflitantes. Por um lado está associado com o que é bom. Sensações agradáveis são boas, a comida é boa, o livro é bom, a música é boa, o sexo é bom. Mas muitas pessoas achariam desperdício uma vida devotada ao prazer. A reação positiva frequentemente é tolhida por medos. Medo de que o prazer nos leve a caminhos onde esqueceríamos deveres e obrigações, deixando nosso espírito se corromper pelo prazer descontrolado. Outros ainda veem o prazer com uma conotação lasciva. O prazer, especialmente o prazer carnal, tem sido considerado, na civilização oidental, como a maior tentação do demônio. Para a tradição católica romana, isto inclui todos os ramos protestantes, quase todas as formas de prazer são formas de pecado.
Todos receiam o prazer. Como a cultura moderna está dirigida mais pelo ego do que pelo corpo, o poder se transformou no principal valor, reduzindo o prazer a uma situação secundária, um meio para atingir o poder. O homem moderno quer dominar o mundo e comandar o self. Contudo não consegue se livrar do medo de que isso seja impossível, nem da dúvida de que talvez não fosse bom. Apesar disso, o homem moderno faz o que faz porque acredita (esperança ou ilusão) que ao alcançar seus objetivos (efêmeros), terá uma vida de prazeres. Essa situação se assemelha à de Fausto que vendeu a alma a Mefistófeles em troca de uma promessa que nunca poderá se cumprida. Apesar da promessa de prazer ser a tentação do diabo, o prazer não pode ser proporcionado pelo diabo.
Fausto continua tão sinificativo hoje como na época de Goethe (aqui cabe um alerta aos leitores pedagogos, aos que não estão acostumados ao ensino e aprendizagem, de que estamos usando de generalização). Entre a magia do século XVI e a ciência do nosso século não há diferença no empenho em dominar e controlar a vida. Seria bom compreender que todos nós, como o D. Fausto, estamos prontos a aceitar as tentações do demônio. Ele está dentro de cada um sob a forma de um ego, que nos acena com a realização de um desejo desde que o obedeçamos. A (falta de) personalidade dominada pelo ego é que é uma perversão diabólica da verdadeira natureza humana. O ego não existe para ser mestre do corpo, mas sim servo, leal e obediente. O corpo, diferente do ego, deseja prazer e não poder. O prazer é a origem dos bons pensamentos e sentimentos felizes. Quem não tem prazer (inclusive físico) se torna rancoroso, frustrado e cheio de ódio. O pensamento e o potencial criativo se perde, e esse ser se torna autodestrutivo (câncer, por exemplo).
baseado em Lowen, Alexander. Prazer: uma abordagem criativa da vida; tradução Ibanez de Carvalho Filho. – São Paulo : Summus, 1984.

Eles disseram…