
Minha amiga Mariangela Monezi, consultora há mais de vinte anos em Direito Societário, escreveu um artigo muito interessante:
Há cerca de dois mil anos os recrutamentos e seleções eram muito mais rígidos que hoje em dia.
Na porta de entrada do Instituto de Pitágoras lia-se.
“Profanos, afastai-vos!“
Um criterioso processo de seleção vetava muitos dos candidatos à escola. Pitágoras era extremamente difícil na admissão dos noviços, dizendo que
“nem toda a madeira serve para esculpir um Mercúrio.”
Os jovens que queriam entrar na associação deveriam passar primeiro por um período de provas. Permitia-se, no começo, a entrada no ginásio pitagórico, onde se entregavam aos jogos próprios da sua idade.
O recém-chegado era convidado a tomar parte na conversação dos noviços, como se ele fosse já um dos seus. Animado, o pretendente mostrava depressa e abertamente a sua verdadeira maneira de ser.
Durante esse tempo, os mestres observavam-no de perto, sem o reprimirem. Pitágoras vinha de imprevisto estudar-lhe os gestos e as palavras, atentando particularmente ao modo de caminhar e de rir dos moços. O riso, dizia ele, manifesta o caráter por uma maneira indubitável, e não há dissimulação possível que embeleze o riso do mau. Fizera da fisionomia humana um estudo tão profundo que, por ela, desvendava o fundo das almas.
Passados alguns meses, vinham as provas decisivas, que lembravam as da iniciação egípcia, porém suavizadas e adaptadas à natureza grega. Aqueles que fossem aprovados, iam para a prova moral. Sem preparação prévia, trancava-se o candidato em uma cela triste e nua. Deixavam-lhe uma ardósia e ordenavam-lhe que descobrisse o sentido de um dos símbolos pitagóricos.
O neófito passava doze horas encerrado na cela com a sua ardósia e o seu problema, sem outra companhia mais que um jarro com água e pão seco. Depois, conduziam-no a uma sala, à presença de todos os noviços que, nessa circunstância, tinham ordem de escarnecerem sem piedade o infeliz. Era nesse momento que o mestre observava com uma atenção profunda a atitude e a fisionomia do candidato.
Irritado pela troça, machucado pelos sarcasmos, humilhado por não ter podido decifrar o enigma incompreensível, deveria fazer um esforço enorme para se subjugar. Alguns choravam de raiva; outros respondiam por palavras cínicas; outros, fora de si mesmos, partiam com furor a ardósia, cobrindo de injúrias a escola e o mestre.
Pitágoras aparecia então e dizia, cheio de calma, ao moço, que tendo ele suportado tão mal a prova do amor-próprio, lhe pedia para não voltar mais a uma escola, de que fazia uma opinião tão má, e na qual a amizade e o respeito do mestre deveriam constituir virtudes elementares. O candidato expulso retirava-se envergonhado, tornando-se por vezes um inimigo irredutível da ordem.
Aqueles que, pelo contrário, suportavam os ataques com firmeza, que respondiam às provocações por meio de reflexões justas e espirituosas, e declaravam que estariam prontos a recomeçarem cem vezes a prova, para obterem uma única parcela da sabedoria, eram solenemente admitidos ao noviciado recebendo felicitações entusiastas por parte dos seus novos condiscípulos. Só então começava o noviciado chamado “preparação”, que durava, no mínimo, dois anos, podendo prolongar-se até cinco.
Os noviços, ou “ouvintes” eram submetidos à regra absoluta do silencio, durante o tempo das lições: não tinham o direito de fazer uma única objeção aos seus mestres, ou de discutirem os seus ensinamentos. Deveriam recebê-los com respeito, e meditar longamente sobre eles depois, consigo mesmos.
Pitágoras acreditava que exercitar alguém na dialética e no raciocínio, antes de lhe dar o sentido da vida, só serviria para produzir cabeças ocas e sofistas pretensiosos. O que ele ambicionava desenvolver, antes de tudo, nos seus discípulos, era a faculdade primordial e superior do homem: a intuição.
Pitágoras dizia que para atingir a suprema sabedoria, era preciso amá-la, e aqueles que fossem amantes do saber, seriam filósofos. E neste caso, não basta apenas especular, pensar sobre a verdade. Tem de estar conectado com ela através do coração. A busca não pode ser apenas intelectual; ela tem de ser profundamente intuitiva, tem de alcançar o próprio centro do seu ser.
A passagem para o próximo grau, da “purificação”, era um dia feliz, um dia de ouro. Era quando Pitágoras recebia o noviço na sua moradia, consagrando-o solenemente como seu discípulo. Começava por entrar em relações diretas com o mestre, penetrava no interior da sua habitação, reservada unicamente aos seus fiéis. Essa relação consistia em iniciá-lo nos conhecimentos esotéricos mais profundos.
Pitágoras estabeleceu no seu Instituto uma seção para mulheres. As mulheres por ele iniciadas recebiam os princípios supremos da sua função – dando a elas a consciência do seu papel no mundo. Mostrava que o homem, pela sua vontade criadora, é capaz de fecundar a alma feminina, de a transformar pelo ideal divino. E esse ideal a mulher lhe devolve multiplicado nos seus pensamentos vibrantes, nas suas sensações sutis, nas suas adivinhações profundas: ela lhe devolve à sua imagem, transfigurada pelo entusiasmo, quer dizer, ela “torna-se” o seu ideal, porque o “realiza” na sua própria alma.
Os graus seguintes faziam parte da Grande Iniciação, da Suprema Instrução. Eram para aqueles que já tinham a visão do alto. Para esses, Pitágoras pregava os mais altos e belos ideais de aperfeiçoamento humano e espiritual. Era quando, então, o mestre gostava de dar as suas aulas longe do dia profano e indiscreto. Preferia a noite, à beira do mar, nos terraços do templo de Ceres, sob as longínquas luzes da Via Láctea.
Assim, o Instituto Pitagórico, sediado na Magna Grécia (Itália), em Crotona, tornou-se, ao mesmo tempo, uma academia de ciência, um colégio de educação e uma pequena cidade-modelo, sob o governo de um grande iniciado. O seu fim não era, simplesmente, o de ensinar a doutrina esotérica a um circulo de discípulos escolhidos, mas ainda o de aplicar os seus princípios à educação da mocidade e à vida do Estado.
Pitágoras dizia:
“Educai as crianças e não será preciso punir os homens.“
Seu objetivo era fundar uma escola de ciência e de vida, donde sairiam não políticos e sofistas, mas sim homens e mulheres iniciados, verdadeiras mães e puros heróis! Pitágoras partia dos sentimentos naturais, dos deveres primários do homem ao entrar na vida, mostrava-lhes a sua relação com as leis universais. Logo de início, procurava incutir no espírito dos jovens o amor pela família. Louvava a amizade. Ele dizia que “o amigo é um outro nós-mesmos. É necessário honrá-lo como a um deus”.
As energias individuais eram despertadas, a moral tornava-se viva e poética, a disciplina aceita com amor deixava de ser um constrangimento, tornando-se propriamente a afirmação de uma individualidade. Ele pretendia que a obediência fosse um assentimento. O ensino moral preparava o ensino filosófico, pois as relações que se estabeleciam entre os deveres sociais e a harmonia do Cosmos faziam pressentir uma lei maior. Era nessa lei que residia o princípio dos mistérios, da doutrina oculta e de toda a filosofia. O espírito do educando habituava-se, assim, a encontrar sob a realidade visível o cunho de uma ordem invisível. É como o inseto alado, agora verme da terra, logo borboleta celeste. Quantas vezes têm ela sido crisálida e quantas mariposa? Não o saberá nunca; porém, sente que tem asas!
Pitágoras representa, pois, o adepto de primeira ordem. Uma grande época tem sempre na sua origem um grande inspirador; e os seus discípulos e os discípulos daqueles formam a cadeia magnética que propagam o seu pensamento. A ordem subsistiu durante muitos anos e quanto às idéias do mestre, essas vivem ainda em nossos dias, pois a escola pitagórica conheceu a realização interna e viva da Verdade – pela fecundidade do exemplo!





Eles disseram…