
Para administrar recursos humanos em Pindorama, talvez seja interessante entender um aspecto da sua genética cultural.
Uma característica curiosa do nacionalismo havido em Terra brasilis: o caráter nacional brasileiro não se assenta no idêntico, na identidade, e sim no outro, ou na alteridade (por oposição a identidade), uma vez que o que estaria em questão seria a aderência ao mundo civilizado num jogo cujas regras eram determinadas pelo dono do espetáculo, o civilizador.
Neste sentido José de Alencar, com seu romantismo indianista, poder exemplificar o processo de nacionalização a que estivemos submetidos.
Em ‘O guarani’, a bravura heróica e nobre do indígena está assentada na sua maior qualificação: bem servir o senhor conquistador até o limite de desejar ser o outro. Mais do que isso, de assumir a condição provisória de outro e ainda assim por razões servis.
“Se tu fosses cristão, Peri!….
O índio voltou-se extremamente admirado daquelas palavras.
– Por quê?… perguntou ele.
Por quê?… disse lentamente o fidalgo. Porque se tu fosses cristão, eu te confiaria a salvação de minha Cecília, e estou convencido de que a levarias ao Rio de Janeiro à minha irmã.
O rosto do selvagem iluminou-se; seu peito arquejou de felicidade, seus lábios trêmulos mal podiam articular o turbilhão de palavras que lhe vinham do íntimo d’alma..
- Peri quer ser cristão! Exclamou ele.”
(O guarani, parte VI, cap. X)
O que temos aqui é o cerne de nossa identidade nacional como aderência ao outro, mesmo que provisoriamente. E com que majestade medieval o outro se nos dá seu “nome”, ou sua chave de identificação resguardada em séculos de civilização:
“O índio caiu aos pés do velho cavalheiro, que impôs-lhe as mãos sobre a cabeça.
- Sê cristão! Dou-te o meu nome!”
(idem, ibidem)
É assim que Alencar apresenta-nos o idílico da Nação brasileira: o herói indígena, tornado cristão pelo sacrifício ao outro que veio para lhe tomar as terras.
Mas no interior deste índio já habitava um cristão: a cáritas. E do caráter caridoso fez-se o reconhecimento do novo cristão e selou-se a alteridade como definição para o nacionalismo indianista de Alencar. Todavia, faltava ao nacionalismo o seu mito de origem para que a legitimação se consumasse. Eis Iracema.
Nessa obra, as questões de alteridade já estão postas e naturalizadas, seja pela felicidade de Poti por tornar-se, a exemplo de Peri, um branco nomeado, Felipe Camarão, seja pela recusa natural do branco em responder a esta identificação com a recíproca, na medida em que o Coatiabo, para Martim, não teve a menor importância subjetiva a não ser aquela estratégica: estar a mais um passo próximo da consumação da conquista.
Importa em Iracema a legitimação do conquistador por dote e herança. Se em O guarani houve uma provisória condicionalidade identificadora – Peri só será ele mesmo na selva e em sua condição de selvagem –, aqui o nascimento de Moacir selará, na mestiçagem – ou na miscigenação, como se queira –, a legitimidade da conquista pelo mito da origem e pela aceitação incondicional do outro como espelho para identificação.
“No meio de homens civilizados, [Peri] era um índio ignorante, nascido de uma raça bárbara, a quem a civilização repelia e marcava o lugar de cativo. Embora para Cecília e dom Antônio fosse um amigo, era apenas um escravo.
Aqui, porém, todas as distinções desapareciam; o filho das matas, voltando ao seio de sua mãe, recobrava a liberdade; era o rei do deserto, o senhor das florestas, dominando pelo direito da força e da coragem.”
(idem, ibidem)
Peri ainda guarda sua liberdade no seio da mãe, para a qual se vê obrigado a retornar pela recusa de reciprocidade na identificação. O índio não foi aceito pela sociedade branca como um igual e, apesar de Cecília e Dom Antônio o terem tomado em alta estima, nunca passou da condição de amigo cativo – a mãe branca lhe permanecerá inalcançável.
Entretanto, em Iracema, anagrama da mãe América, Moacir, filho do sofrimento, perde o direito que antes fora imputado à Peri e não poderá mais retornar aos braços maternos libertadores.
“A jovem mãe suspendeu o filho à teta; mas a boca infantil não emudeceu. O leite escasso não apojava o peito.”
(Iracema, cap. XXXI)
Moacir será entregue ao outro feito Pai que recebeu a terra como dote de união e que lhe dará não só o nome, mas o sangue branco na origem – como condicional de troca hereditária –, e com ele, o servilismo por filiação como resposta do outro constituindo o eu na mais branda inocência.
“A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde erguer o filho nos braços, e apresentá-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor.
- Recebe o filho de teu sangue. Era tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!”
(Iracema, cap. XXXII)
É assim, como emblema e mito, que o indianismo romântico em Alencar naturaliza e legitima nosso nacionalismo que terá orgulho de sua origem primitiva, no entanto, muito menos por sua potência heróica para a resistência à dominação do que pela sua capacidade de reconhecer a supremacia da civilização estrangeira.
O emblema e o mito, que em Alencar falam do particular do indígena, no geral, tratam da própria condição do romantismo no Brasil como alternativa para assentar uma história de cunho moderno, ou seja, livre. E no cerne de nossa libertação está o paradoxo que nos define servos. Nossa liberdade é a liberdade civilizadora dada pelo outro como herança dignificante do negócio escuso que foi a colonização. Era preciso apagar, no dominador, o tom demoníaco do massacre às tribos indígenas, transferindo este traço repulsivo para aquelas tribos que resistiram e tiveram que morrer em nome da empresa. Naturalizar a conquista foi o preço pago pelo romantismo e, como recompensa, a Nação da alteridade se funda em oposição à identidade nacionalista do chamado projeto de modernidade, no qual nossa participação foi fundamental, posto que fomos o mundo selvagem a ser conquistado e a conquista dava o tonus heróico para sustentar o patriotismo idealizado pelo europeu. Aqui, ser brasileiro é aceitar ser o outro.
* Baseado em SEÇÃO 1 – ENSAIANDO A REFRAÇÃO, R_e-m_L, nº 1 – Anno I, 10/2008, O Indianismo Romântico de Alencar e o Nacionalismo da Alteridade, Alexandre Dias Paza – poeta, contista e ensaísta, doutor em Comunicação pela ECA/USP, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira no CEFET-SP e de Teoria da Literatura no Ensino Superior em Guarulhos. <panfleto_eletronico@yahoo.com.br>
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Eles disseram…