Sergio Vieira Holtz Filho
Ontem minha mãe me pediu que a levasse ao médico (oftalmologista). E quem é que pode negar um pedido de mãe? No caminho ela foi me preparando para não estranhar o lugar, porque era nos fundos de uma loja de materiais hidráulicos, mas que aquele médico era muito bom, ele cuidava do meu avô e meus tios e minhas tias vão todos lá, meus irmãos também, etc.
Quando chegamos na tal “hidráulica” a gente pede licença pra um balconista (depois soube que era o filho do médico) e ele nos conduz loja a dentro, passando entre canos de PVC e louças sanitárias até uma porta de ferro fechada, que ele gentilmente abre e nos indica um corredor escuro a direita e uma escada, não mais iluminada, à direita. É no primeiro andar.
É o primeiro andar do que será um dia um hotel. Há muitos anos está em construção. Reboco aparente, lâmpada pendurada nos fios, o chão mal varrido e empoeirado com aquela poeira de construção. Acho que todos já sentiram o cheiro de construção, um cheiro que insiste em ficar impregnado nas nossas narinas por dias a fio. No final da escada, um espaço entre a escadaria e a porta do consultório, iluminada por lâmpadas incandescentes que mais pareciam lamparinas naquele imenso espaço sombrio, vazio. Alto, os corredores dos três andares de apartamentos dão varandas para esse átrio cobertos com telhas “eternit” alternadas com translúcidas já amarelecidas pelo tempo.
Sentamo-nos em cadeiras de plástico branco. Esperamos um pouco enquanto o “Dr.” terminava uma consulta. Ele saiu, cumprimentou cordialmente e acompanhou um casal até as escadas. Voltou-se para nós sorrindo, e desde longe ia perguntando da família, e, conversando, entramos na sala. A consulta transcorreu muito animada em conversas amenas e recordações dos tempos de estudante e dos amigos idos e vindos nesse tempo que a tudo e a todos perdoa. À saída uma senhora já esperava para ser atendida. Ele a cumprimentou cordialmente, e nos acompanhou até a escadaria, segurando os nossos braços até os primeiros degraus, cumprindo o seu ritual de atendimento.
Na saída o comentário: “Saí lá do centro e me escondi aqui para ver se não atendia mais. Não sei como é que as pessoas me acham aqui.” Minha mãe acrescentou: “Todas as vezes que estive aqui ele estava atendendo. Nunca vi esse consultório vazio”
Pense nisto e venda mais.
Felicidades.
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Eles disseram…