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O Estado surge das necessidades dos homens

Sergio Vieira Holtz Filho

Segundo Platão

-- Então, como temos muitas necessidades e fazem-se mister numerosas pessoas para supri-las, cada um vai recorrendo à ajuda deste para tal fim e daquele para tal outro; e, quando esses associados e auxiliares se reúnem todos numa só habitação, o conjunto dos habitantes recebe o nome de cidade ou Estado. Não é assim?

-- Assim mesmo.

-- E realizam trocas entre si, e um dá e outro recebe, por acharem que isso redunda em seu benefício?

-- Evidentemente.

-- Eia, pois! -- disse eu -- Construamos mentalmente um Estado. E, no entanto, a verdadeira criadora é a necessidade, que é a mãe de nossa inventiva.

-- Decerto.

As quatro ou cinco grandes necessidades da vida

-- Ora, a primeira e a maior de todas as necessidades é a provisão de alimentos para manter a existência da vida.

-- Naturalmente.

-- A segunda é a habitação; a terceira, o vestuário e coisas semelhantes.

-- Certo.

-- Vejamos agora como atenderá nossa cidade à provisão de tantas coisas? Suponhamos que um homem seja lavrador, outro pedreiro, outro ainda tecelão; não será necessário acrescentar a este número um sapateiro, ou talvez algum outro dos que atendam às nossas necessidades corporais?

-- Efetivamente.

-- Então uma cidade deverá incluir, no mínimo, quatro ou cinco homens.

-- Assim parece.

A divisão do trabalho

-- E dai? Deverá cada um deles dedicar sua atividade à comunidade inteira - produzindo, por exemplo, o lavrador para quatro e trabalhando quatro vezes mais do que necessita, a fim de subministrar não apenas a si mesmo, mas também aos demais? Ou deverá fazer caso omisso dos outros, dedicando a quarta parte do tempo a obter para si só a quarta parte do alimento comum e passando as três quartas partes restantes ocupado, sucessivamente, com a sua casa, sua roupa e seu calçado, sem se associar-se em nada aos demais, mas suprindo ele mesmo todas as suas necessidades?

A dimanto foi de opinião que a primeira alternativa era mais razoável do que a segunda.

(A República - Platão)

02/1999

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